"Bem, eu não sei como dizer isso, senão direto ao ponto. Bem, o ponto é que chegamos a um ponto, eu pelo menos, que a gente acaba parando pra analisar o que a gente tem. O caso é que estamos saindo já faz um bom tempo e... O que está acontecendo? Tudo e nada. Tudo: nos damos super bem e nossas conversas sempre rolam legal e eu tenho um afeto enorme por você, além da parte física que, você sabe, é deliciosa e incomum. Nada: olha, acho que a gente acabou se metendo numa confusão sem tamanho e eu me sinto enfiando os pés pelas mãos. Não sei, talvez a gente deva pegar mais leve, esse lance todo tem me deixado assustada. Enfim, não sei exatamente o que quero dizer, talvez precise de um tempo pra pensar melhor nisso, um tempo pra mim, um tempo de nós [...] Essa situação tá insustentável pra mim, ando cheia de coisas pra fazer e não sei por onde começar. Eu não queria me apaixonar agora, é isso. Acho que a gente não deveria levar tudo tão a sério."
"Você me faz sorrir."
"Posso esfregar meu pé no teu? Tenho frio."
"Adorei passar um fim de semana inteiro contigo. No início eu tive medo, acho que estava projetando minhas limitações na sua pessoa. Mas você não era nada daquilo. Você é gentil e doce. E cada gesto seu me surpreende. Sei lá, acho que ninguém nunca fez nada de bom por mim a vida toda, nada parecido com o que você conseguiu em dois dias. Meio abrupto, reconheço. Você me faz viver fora da minha linha e é isso que eu gosto em você. Dá medo, mas é um medo gostoso de ter."
"Isso é amor?"
"Se sentir tesão, me acorda."
Ela realmente falou essas coisas? [...] Me explica. Por que tanta prolixidade, por que tantos subterfúgios, por que tantos chavões do tipo "ah-preciso-de-um-tempo-pra-pensar"? Como exatamente pensar ajudaria nesse tipo de ocasião? Estamos falando de amor e não de como monopolizar a Brigadeiro Faria Lima no Banco Imobiliário.
[...] somos ótimos juntos, temos tudo em comum e muitas histórias pra compartilhar, e o sexo, deus do céu, nem Anaïs Nin saberia descrever. Se isso não é amor, eu não sei o que é. Venha com o peito aberto, estufado e cheio de coragem. Ou vá embora. Mas depois não vem me dizer que tem coração.
[Gabito Nunes]

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