quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Porto e o vinho do Porto




Na foz do rio Douro está o Porto, uma cidade que se orgulha de ter emprestado seu nome não só ao vinho lá fabricado, quanto ao próprio país. Chamada pelos romanos de Portus Cale, esta cidade carrega tanta história que eu poderia discorrer infinitamente sobre ela.
Não sei ao certo o motivo, mas sempre tive uma afinidade por ela. Talvez fosse o toque de vinho do porto nas rabanadas do natal ou o simples sentimento de que, além de ser uma cidade linda, lá se comia e bebia muito bem. Quando tive a chance de ir a Portugal, fiz questão de inclui-la no roteiro.
É uma cidade escura, antiga, que até adquire um certo tom sombrio em um dia nublado e que a cada esquina se respira história. Suas construções de pedra não me deixavam esquecer que aquela era uma das cidades mais antigas e importantes de Portugal.
Descendo as estreitas ruas da cidade, chega-se ao Douro. O rio que nasce na Espanha e desemboca no Atlântico cruza duas das regiões vinícolas que considero mais importantes: Ribera del Duero, ainda na Espanha, e Douro/Porto, já em Portugal. Da margem direita vê-se a cidade de Vila Nova de Gaia, onde está a maioria das caves de vinho do Porto. Seus letreiros espalhados pela encosta nos convidam a degustações divinas e é difícil escolher a melhor delas.
Não se tem certeza da origem do vinho do Porto como nós conhecemos, mas imagina-se que os ingleses começaram a adicionar brandy ao vinho seco do Douro antes que ele terminasse a fermentação, pois dessa forma ele resistiria melhor à longa viagem à ilha bretã. Hoje, o porto é feito através da adição de aguardente vínica (com cerca de 70% de álcool) ao vinho antes de terminada a fermentação. O acréscimo de álcool interrompe a fermentação e faz com que o açúcar da própria fruta, que ainda não foi transformado em álcool, continue presente na bebida, resultando em um vinho doce e alcóolico. Este processo faz com que o Porto seja considerado um vinho licoroso, ou fortificado. As castas mais usadas são as mesmas dos vinhos secos do Douro: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca.

A legislação sobre a produção de vinhos do porto é severa e as classificações são muitas e se dividem em duas grandes categorias: Ruby e Tawny, que se distinguem sobretudo de acordo com a forma de envelhecimento. Rubies são envelhecidos em balseiros e, posteriormente, nas garrafas, já tawnies, por sua vez, em barricas. Ambos são deliciosos, mas cada um tem suas particularidades.
Amo os portos pela diversidade. Cada tipo e cada garrafa podem ser muito diferentes entre si e as mãos dos enólogos estão presentes nas misturas não só de diferentes uvas, mas também de diferentes safras. É como se existisse um outro mundo dentro de uma pequena região de um dos menores países da Europa.
Como são doces, as harmonizações tradicionais são feitas com doces. Um dos maiores prazeres da vida é sentar em uma confeitaria e beber um tawny envelhecido acompanhado de um doce conventual, a base de gemas de ovos e com aquele toquezinho de canela tão adorado pelos portugueses. Adoro o “café com bolo”, mas o “porto com pasteis de santa clara” é uma experiência divina. Os portos mais oxidados, de cor mais alourada, casam muito bem com os doces a base de ovos e creme. Os portos de cor mais intensa como os rubies, com chocolate e café. E os brancos, com sobremesas de frutas. Essas são linhas gerais, pois as características que o tempo e os processo impõem aos portos lhes dá aromas e sabores muito diversos, mesmo dentro de uma mesma classe.

Nunca esqueço de uma degustação em que foram combinados um gorgonzola maduro com um tawny 20 anos, já bem alourado, com toques de mel e especiarias, Se me deixassem, não sairia tão cedo de lá e devorava a forma do queijo e garrafa do vinho inteiras. Imagine o seu “queijos e vinhos” em versão turbinada, foi mais que isso.
Se você tiver a oportunidade de ir a Portugal, mas por algum infortúnio não for ao Porto, sugiro que vá ao Solar do Vinho do Porto, em Lisboa. Só de pensar que o governo criou um bar estatal para divulgar o produto, já nos deixa animados. É, sem dúvida, a melhor carta do gênero que já vi e você pode ter as mais diversas experiências sobre o assunto. Aproveite e peça um belo queijo de ovelha para acompanhar.
Existe muito para se experimentar além dos vinhos tintos secos encorpados que dominam atualmente o gosto internacional. Dê uma chance e veja que, para um vinho ser bom, não precisa ser seco, nem de uvas internacionais. Mas vá com cuidado, afinal, o teor alcoólico elevado pode lhe subir à cabeça!

Por:Cristiano Lanna.
Disponível em Selo Reserva.  Texto e Imagem.



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